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Poucochinho. Manifestamente.

por alho_politicamente_incorreto, em 17.10.15

António Costa logrou alcançar o que há um ano se tinha por impensável: a derrota. Com uma campanha tristemente marcada pelo amadorismo, acumulando erros e falhas grosseiros, acabou engolido pela narrativa da coligação PaF. O Partido Socialista parece tragicamente perdido em combate, descaracterizado e envelhecido. Não se abriu à sociedade que diz querer defender, evidência tangível na ausência de quadros de valia. Também no PS a política deixou de estar entregue aos melhores.

 

Ao contrário do que a maioria da opinião publicada tem arguido, entendo que o PS não se radicalizou à esquerda. O problema do PS foi não ter sido capaz de convencer e de arregimentar a esquerda. O aumento percentual registado pelo BE – o outro vencedor da noite – se transferido para António Costa, teria feito pender a tendência de vitória para o Largo do Rato. De facto, poucochinho. Manifestamente.

Por isso, há que louvar o trabalho desenvolvido pelo cérebro brasileiro André Gustavo que, num rasgo de inteligência, admitiu «quando estávamos (n.d.r. PaF) num momento difícil, soubemos estar quietos.»

 

Sem programa e medidas quantificadas, a coligação – que resistiu aos irónicos trocadilhos de quem viu naquela abreviatura um maná de fragilidades – ousa fazer uma campanha centrada ora no passado de Sócrates, ora no programa de governo socialista, conseguindo furtar-se ao julgamento criterioso dos últimos quatro anos de governação. A estratégia comunicacional revelou-se tremendamente eficaz. Por isso, há que louvar o trabalho desenvolvido pelo cérebro brasileiro André Gustavo que, num rasgo de inteligência, admitiu «quando estávamos (n.d.r. PaF) num momento difícil, soubemos estar quietos.»

O que significa ser esquerda ou direita no mundo atual? Por que é que a esquerda é boa e a direita é má, e vice-versa? A perplexidade do exemplo grego acentua a premência da reflexão. Para os apaniguados da ciência política clássica, o Syriza será um partido da extrema-esquerda que hoje aplica uma política de direita. No entanto, no norte da Europa, há países onde a direita governará bem mais à esquerda do que qualquer esquerda no sul do velho continente. Terá chegado a hora de repensar a nomenclatura política?

 

A abstenção voltou a bater recordes. Nem a crise, nem o maior número de alternativas levaram mais portugueses às urnas. Dos 9.682.369 portugueses inscritos para votar, 43,07% não foi às urnas. Este passou a ser o valor mais alto de sempre da abstenção em eleições legislativas. Uma tragédia também empolada pela não atualização dos cadernos que eleitorais que aproveitará aos mesmos do costume.

 

Joana Amaral Dias despiu-se na “Cristina”. Arrecadou 20.690 votos. A revista rondará os 70.000 exemplares de circulação impressa. Se todos os leitores daquela publicação tivessem votado na Joana, o Agir/PTP/MAS estaria em clima de euforia. Conclusão: mesmo num país em que a política é feita de filmes e de pantomineiros, há métricas. E níveis.

 

Um terço dos lugares no Parlamento vai ser ocupado por mulheres. Em rigor, 76 deputadas em 230 lugares. Em 2011, haviam sido eleitas 62 mulheres, quase 25%. Neste país de cultura predominantemente machista e de raízes patriarcais, a mulher parece assim ganhar, ainda que a um ritmo estranhamente compassado, mais espaço na política nacional.

 

Outra surpresa foi o PAN, o grande vencedor da noite entre os pequenos partidos. O Pessoas-Animais-Natureza (PAN) elegeu um deputado pelo círculo eleitoral de Lisboa. Logo após as eleições, alguém confidenciava: «tantos partidos cheios de autênticas bestas e só um foi reconhecido como defensor dos animais! Bom trabalho do PAN! Até a tourada pode vir a ser outra!»

 

«Portugal inteiro há de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!
Morra o Dantas, morra! Pim!» - José de Almada Negreiros, Poeta d'Orpheu, Futurista E Tudo.

 

Por Albergaria, a Assembleia Municipal chumbou a concessão da estação ferroviária. Recorde-se que a edilidade havia chegado a acordo com a IP Património, a antiga Refer, para a cedência daquela estação da Linha do Vouga por 20 anos. O contrato terá sido recusado pela bancada do PSD, uma posição que o presidente António Loureiro classificou de «lamentável». Garante-se agora que, com o chumbo, Albergaria-a-Velha poderá perder um investimento de cerca de 500 mil euros. Contudo, no número anterior deste jornal, detalha-se que «a autorização foi negada com 12 votos contra da bancada do PSD, 3 abstenções, sendo duas do PS e uma do deputado do CDS, António Letra e 11 a favor da bancada do CDS. Esclarece-se que, caso o deputado do CDS tivesse votado a favor, ocorreria um empate possível de ser ultrapassado com o voto de qualidade do Presidente da Assembleia Municipal (…)»

 

Se assim foi, a dúvida instala-se. Poder-se-á ter uma de duas interpretações. A benigna, que aponta para a existência de pluralidade de opiniões no seio do CDS-PP/Albergaria, de que será expoente máximo António Letra no cumprimento do seu dever de escrutínio, ou a menos simpática, que assaca a António Loureiro a responsabilidade de nem ser capaz de mobilizar ou convencer os seus correligionários quanto à bondade das suas propostas. E só o tempo poderá aclarar o que agora não se percebe. Aguardemos.

José Manuel Alho

 

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A inveja e a vaidade.

por alho_politicamente_incorreto, em 04.10.15

Curiosamente, num daqueles momentos que precedem as aulas, vi-me forçado a escutar relatos de cavernosos esquemas para celebrizar a vaidade e a inveja. Habitualmente, aquelas irmãs caminham lado a lado, numa parceria mesquinha que arrebanha e anima as almas pequenas. Porque ainda me indigno com a maldade de quem não sabe (ou não quer) fazer o bem, renunciando a valores que só evoca em momentos de severa necessidade ou conveniência, aceitei dispensar breves minutos à saga de tão miseráveis comparsas. Sem esforço, tropecei nesta reflexão de António Lobo Antunes ao “Diário de Notícias”: «Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: “Quanto é que ele deixou?” O advogado respondeu: “Deixou tudo.” Ninguém é mais pobre do que os mortos.»

Lapidar.

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O comércio dos manuais escolares.

por alho_politicamente_incorreto, em 03.10.15

Ao contrário do quinteto de países (Suécia, Noruega, Dinamarca, Holanda e Finlândia) que empresta os livros aos seus alunos até ao final do 3.º Ciclo, Portugal vê, quase em contraciclo, crescer um mercado que deverá, em 2015, atingir os 200 milhões de €uros. É certo que, em 1989, o Conselho Nacional de Educação já havia recomendado a gratuitidade progressiva dos manuais escolares. No entanto, a revisão constante dos programas, com a sistemática viabilização de (pseudo) reformas educativas, inviabilizou o cumprimento daquele desiderato.

Mas não só. Fazendo fé num estudo recente a respeito das intenções de compra dos portugueses no regresso às aulas, 94% dos pais declarou optar pela compra de manuais novos. E, por fim, há também quem aponte o dedo às editoras que estariam apostadas em defender o seu negócio.

... resta acalentar a esperança de, finada a ignara torrente de promessas eleitoralistas, se possa minorar as dificuldades das famílias, afrontando poderosos interesses instalados.

 

De todos estes contributos para melhor enquadrar e perceber a situação de contraciclo em que nos encontramos nesta matéria, tenho por determinante o que impende sobre a ação do Estado. De acordo com a investigação "O manual escolar no século XXI - Estudo comparado da realidade portuguesa no contexto de alguns países europeus", do Observatório dos Recursos Educativos (ORE), Portugal é um dos países europeus onde o Estado tem uma maior intervenção no mercado do livro escolar, tendo, por meio da tutela, «um ímpeto regulador maior do que o que existe nos outros países europeus na definição das características dos recursos educativos». Os dados recolhidos pelo ORE sublinharam, por outro lado, a ausência de uma «política efetiva e consequente de gratuidade dos manuais escolares». 

Em razão do cenário ora descrito, só resta acalentar a esperança de, finada a ignara torrente de promessas eleitoralistas, se possa minorar as dificuldades das famílias, afrontando poderosos interesses instalados.

 

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Ainda sobre o início do ano letivo.

por alho_politicamente_incorreto, em 02.10.15

Apesar de todos os constrangimentos, abundantemente documentados na história desta última assistência externa, a Escola Pública foi capaz de iniciar a atividade letiva em relativa normalidade. Por cá, destaque para as novas salas e outras infraestruturas inauguradas no ensino Pré-escolar e no 1.º Ciclo. Os centros escolares de Angeja, de Alquerubim, bem como as EB1/JI de Laginhas e de Albergaria-a-Nova, receberam a visita do presidente da edilidade e da vereadora da Educação, numa demonstração de interesse que cumpre registar.

O momento em que as aulas começam - usualmente polvilhado com a paleta de sensações e aromas oferecidos pelo outono - costuma ser pródigo em mensagens. Daí que tenha sucumbido à tentação de, por esta via, fazer minhas as palavras de Diane Ravitch, uma renomada analista de políticas educacionais, que no seu blog lembrou em jeito de exortação: «Cinco dias por semana, ensinamos os vossos filhos./ Significa isso que os educamos./ Que brincamos com eles./ Que os disciplinamos./Que nos divertimos com eles./ Que os consolamos./ Que os elogiamos./ Que os questionamos./Que batemos com a cabeça na parede por causa deles./ Que rimos com eles./ Que nos preocupamos com eles./ Que tomamos conta deles./ Que sabemos coisas deles./ Que investimos neles./ Que os protegemos./ Que os amamos./Todos nos deixaríamos matar pelos vossos filhos./Não está escrito em lado nenhum./ Não faz parte do manual do professor./ Não vem citado nos nossos contratos./ Mas todos o faríamos.

Por isso, por favor, hoje à noite, deem aos vossos filhos, sim, um abraço muito, muito apertado.

Mas na segunda-feira, se virem os professores dos vossos filhos, abracem-nos também a eles.»

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